23 dezembro, 2012

Discurso, 3º ano - COLÉGIO ÚNICO


Como oradora da turma do terceiro ano de 2012, dividi a missão de falar pela turma com a Letícia Falcão. No link a seguir o discurso dela, e a seguir o meu.
*Discurso da Letícia



Verbo ser
Carlos Drummond de Andrade

"Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia o ser quando cresce?
É terrível ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: ser, ser, ser, Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado à? Posso escolher?
                                                          Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer."




Desde pequenos somos bombardeados por milhares destas perguntas, e a cada umas dessas damos milhares de respostas diferentes. Seríamos astronautas, pilotos de carro, modelos, cantores, artistas. Quando criança era fácil responder a pergunta, difícil era eleger a melhor resposta.
Os anos se passaram e essas perguntas não se tornaram menos frequentes, ao invés disso começaram a pesar. O que é ser afinal, como muito propriamente questionou Drummond? Somos a nossa profissão, será? Somos nossos amigos, nossos parceiros, nossos filhos? Somos o reflexo que vemos hoje no espelho?!
Antecipando-se a Freud, Shakespeare dizia que o homem é feito da mesma matéria de seus sonhos. Se somos feitos de sonhos, desenfrearemos-nos a sonhar! Somos, hoje, não apenas os sonhos mais recentes que trazemos conosco, mas somos também todos aqueles sonhos que um dia passaram por nós. Somos, em suma, tudo aquilo a qual nos expusemos a ser. Somos filhos, meninos, meninas, altos, baixos, cristãs, anglo-saxões, budistas.  Somos a aula de balé que um dia fizemos, a natação a qual dedicamos anos e aquela arte marcial que nos aventuramos a começar. Somos as pessoas que conhecemos, os amigos que fizemos, os que passaram, os que permaneceram e os que virão.  Somos a escola onde estudamos e um amontoado de tudo que aprendemos até hoje.
A perguntar “o que vai ser quando crescer?” talvez assuste, mas tenho claramente a ideia de que quem teve aula com Samuel sabe que conhecer seu passado é induvidavelmente saber o que queremos para o futuro. Como o próprio professor incontáveis vezes citou: “a história na mão e a certeza na frente”.

Hoje nos formamos, acabamos um estirão de chão que começou há bons anos atrás. Passamos pelas mais diversas situações, choramos e sorrimos muitas vezes escondidos, outras vezes juntos. Fizemos amigos que levaremos pra vida, tomamos para nós exemplos que nos guiarão  neste novo sonho que começamos a construir hoje, junto com todos aqueles outros que trazemos na bagagem. Entre tantas diferenças, alguns gritos e muitas risadas, o que fica guardado em nós é cada vez mais puro, bonito e digno de lembrança feliz, aquela lembrança que causa sorriso quando vem em mente.
Conhecemos nesta nossa caminhada pessoas maravilhosas, direciono nosso eterno obrigado à equipe Único, sem a qual não seríamos o que somos hoje e o que seremos amanhã.  O Único – colégio de gente feliz, nos abriu as portas que precisávamos, e nos deu a certeza do que somos ao nos proporcionar a liberdade de nos criarmos e nos reinventarmos sempre que preciso, ensinando-nos da melhor maneira possível a ter responsabilidade. Tantas vezes ouvimos o Marcelão nos dizer “liberdade com responsabilidade”, e hoje constatamos que a promessa foi cumprida.
Mas o discurso do Único vai além, uma monografia não seria capaz de dar suporte a todas coisas maravilhosas que descobrimos e aprendemos a lidar enquanto alunos de um colégio como este. Se somos todos os sonhos que um dia tivemos e todas pessoas por quem um dia passamos, orgulhosamente digo: sou Único!  E todos somos, e todos os que já passaram por aqui são. Somos o bom dia do Samuel, a inspeção de uniforme da Tânia, a gargalhada do Marcelão, o sorriso escondido atrás da face emburrada do Zé e o grito escandaloso do Chico. Somos o amor que recebemos invariavelmente a cada dia de aula, com os melhores professores que poderíamos ter. Apenas quem já passou pelo Único reconhece o sentimento que nos toma neste momento ao sermos formados pela escola de sonhos que, afinal, um dia também foi um e pelo esforço daqueles que acreditaram neste sonho, este ano completa 15 anos.

Ser Único é saber que além do dispensável rigor com a roupa que usamos, mora o aprendizado enraizado no amor e nos laços fortes provenientes deste. Ser Único é viver sem a vergonha de ser feliz e saber cantar a beleza de ser um eterno aprendiz.  Nos formamos hoje, mas não fomos apenas graduados no ensino médio, nos formamos em ser Único, e nunca haverá diploma que se sobreponha a este.

Ao Único, meu eterno obrigada pelo aprendizado que levarei pra vida, obrigada por encherem meus olhos de vida e me permitirem ser, assim como cada um de vocês, ÚNICA.

Parabéns por serem ÚNICOS, e que venham mais 15 anos!

17 dezembro, 2012

Enrolei-te tanto pra dizer-te tão depressa
o que tanto mais demoro ao confirmar altruisticamente
que matar meu ego e ceder o lugar que ele ocupava
gosto-te assim: muito. E tanto!
Entrego-te isto tão mais tarde pois que escrito
e tão mais esperado depois de concreto que
por fim então, amo-te assim, do jeito confuso que posso
Amo-te por fim, ao fim de cada segundo que respiro
e amo-te então, pra mim.

15 dezembro, 2012

O problema de ser gente



Qualquer relacionamento é uma via de mão dupla. Um artista só produz quadros para aqueles que os admiram. Sem público, sem show, sem canto, sem choro, sem vela. Em um namoro, em um casamento, em uma vida, deve-se sempre ser levado em conta que tratamos de gente! E gente chora, esperneia, grita, se irrita, se desmitifica, se entrega. Gente acorda de bom e mau humor, gente tem dor de dente, garganta e ouvido. Gente está sempre sujeito a problemas, a lágrimas e a mais gente. E quando se junta gente com gente, sai de baixo! Não existe fórmula secreta, palavrinha mágica ou um botão acelerar, pular capítulo. Gente que é gente vai sempre parar em alguma esquina com algum grito entalado na garganta, que o mata por dentro. Gente que é gente sabe que gritar pro nada é perda de tempo. Gente precisa de gente. Gente pra gritar, pra falar, pra se apoiar.
Ser gente é ser mão dupla também. Quando digo que gente precisa de gente pra bater, descontar e desabar, entenda que os dois lados são gente! Ser gente é mesmo ser via dupla. Tem que saber que explodir é bom, mas que aguentar explosão é necessário. Gente fala com cachorro, gato, passarinho, gambá e papelão, mas gente precisa de gente, INVARIAVELMENTE.
O problema de ser gente é que gente se relaciona. E relacionamento é ''gentichismo'' demais pra gente. Porque ser gente sem relacionamento é ser humano, e errar é humano. E olha, relacionamento não permite erro não, só aqueles bem maduros, com tempo de casa. Porque ainda está pra vir o tempo em que se saberá que errar é gente também, e como boa gente que é deve ter resposta honesta, justa. Se errar é gente e gente precisa de gente, errar será inevitável. Mas desculpar erro, aguentar explosão, dar e receber está ainda muito além de ser gente, porque gente é ser humano com relacionamento, mas relacionamento é gente que gosta de gente e está disposto a aguentar as humanidades que por ventura acontecem no caminho.
O problema de ser gente é que ser gente é complexo demais, porque gente é ainda que gente, humano! E ser humano é ter amor demais pelo raciocínio que se tem a ponto de abrir mão de ser humano pra ser gente. É complexo e egoísta, como cada característica ímpar nos faz ser. Mas ser gente é tão bonito, tão harmônico entre as oscilações que há, que sempre haverá um milímetro de gente dominando os desejos de até mesmo toda humanidade que somos. Ser gente é aprender andar em via dupla, respeitando e cedendo espaço para os que vem, e os que vão. Entendendo que, apesar de qualquer pesar, gente só é gente mesmo quando plural.

11 dezembro, 2012

Rima boba, sorriso rico

Para que não seja deixada de lado a inocência                   

Um dia encontrei o amor
pensei já tê-lo conhecido, inocente sorri
a esse tal amor, que não conhecia, me prendi
e assim muito humildemente desde então o obedeci

Um dia passei pela paixão
Já veterana em permanecer de pé com suas ventanias, a acenei
foi quando do sul veio um vento e do norte a chuva forte
muito desesperadamente segurei, não desmoronei

Outro dia vi você
veio chuva, veio sol, tempestade e até granizo
e não importou tantos treinamentos
no final perdi meus joelhos, caí no chão e não achei mais o juízo

08 dezembro, 2012

Fim de ano é tudo igual (mentira).



Fim de ano é tudo igual pra mim. Sempre acho que coisas boas acontecem no final do segundo tempo, que mal resolvidos se resolvem, que nós se desatam por destino, pelo sentimento de retrospectiva que nos toma. Quase que invariavelmente faço um post aqui. Falo do meu ano, tenha sido ele como foi. Das coisas boas, das tristezas, das recuperações de tristezas, dos sorrisos plenos e repletos de uma compreensão-sei-lá-do-quê. Talvez da vida.
Acho que esse ano esse sentimento tá meio misturado com medo. Ainda não me caiu muito bem a ficha do fim da escola, do discurso (que ainda não preparei) para um salão repleto de rostos e de pensamentos pré-críticos (espero não gaguejar), mesmo que tenha sempre gostado de pontuar tudo: "este foi o início", "este é o fim". Sempre odiei, no geral, deixar coisas entreabertas. Ou entra ou não entra, ou vai ou fica. A angústia da possível volta, do possível arrependimento, sempre me foi muito dolorida. Sempre alimentou em mim uma esperança não-sadia na qual me agarrava com unhas e dentes. Ao mesmo tempo sempre odiei fins, tenho em mim uma imensa necessidade de pontuar bem, e por isso sempre quis um GRAN FINALE. Como perfeccionista que sou, poucas vezes me dei por satisfeita. Parece às vezes que há em mim uma vontade muito grande de explodir, de externar, de gritar, fazer, acontecer. Mas algo estranhamente a inibe, quando descobrir e me livrar disso (e espero que isso aconteça um dia, não muito tarde) penso que serei muito feliz. Às vezes  penso também que é fruto de uma multimídia, de um pensamento muito rápido e abrangente que vê cada mínimo detalhe que pode dar errado, que pode não atingir o auge, o pico, o clímax. Ou fazer de modo errado. Convivo com isso há dezoito anos e nem sei seu nome ainda, pensar demais me assusta. Penso ser anormal, e não to brincando.
Tenho andado num ânimo-desânimo assustadoramente pertubador. O cansaço me toma rápido demais. Chamo isso "final de ano", por isso digo: "final de ano é tudo igual". O cansaço físico, a exaustão mental. Parece que naquele instante em que o calendário acaba, todas as forças se renovam, se firmam, os sonhos incham, os sorrisos se alargam.Talvez ''férias" resuma, mas aí seria sem magia demais. Todos nós precisamos de algo mágico para acreditarmos, para pormos uma fézinha. Bendito seja esse tal de calendário e esse sentimento (talvez artificial) que nos acompanha e se renova na mudança de cada ano.
Nessa minha exaustão mental agravada pelo calor-bafo do quase-verão, ouço uma música tocar e lembro que é pra momentos como esse que o blog existe. Fico feliz. Por mais que pessoas sejam ótimas saídas para um longo papo em uma noite de quase-verão, as palavras e a possibilidade de publicá-las, gravá-las em algum lugar que me permita uma eventual consulta, é ainda umas das melhores válvulas de escape que já tive o prazer de usufruir.
Que um bom ar condicionado me proteja de todo bafo da angústia, AMÉM.

13 novembro, 2012

Gosto de quando tua pele vem de surpresa ao encontro da minha
De quando teu sorriso faz o meu, e os nossos olhares se sustentam
De quando o seu "eu te amo" me arrepia a alma
Gosto da sensação urgente do seu toque quente e macio
Me afundo no conforto que é te ter sem peso, sem cansaço, sem lamento
Tuas palavras atrapalhadas me fazem cócegas, provocam o riso
Teu sono me acalma, te contemplo noite a fora
E dessa saudade que me acorda no meio da noite pouco resta
Tua respiração não tão ritmada me embala o sono
E do teu ombro faço ninho, porto e terra firme
E me crio, e me perco, e me deixo ser
Ser corpo, ser mente, ser amor, ser amada, ser amante
E o calor dos nossos corpos prediz o amanhecer
Dentro do qual, sem perceber, me faz feliz por em ti morar
E morrer de tanto amar, e despertar amando mil vezes mais
Oscilando entre a morte que é te perder de vista
E da vida que nasce ao te ver de longe chegar
Do amor que me deste, que por não ser de vidro não quebrou
Desse amor que em mim alimentou, que de tanto e tanto, explodiu
De paixão virou coisa séria, e com coisa séria não se brinca
E de brincar de amar, é que a ti hoje doo meu amor
Amor que não é de vidro, mas também não é infinito
Amor que deve ser consumido, porém sempre, e é mesmo sempre, nutrido!

29 outubro, 2012


Eu te amo, te amo e essa coisa faz pirraça dentro de mim
Amo, e essas palavras se precipitam, saem sem eu deixar, arrombam a porta, fazem escândalo
Amo, tão ferozmente que tua saudade chega a doer fisicamente em mim

Te amo, longe da lucidez e perto da vontade
De um jeito estridente e incontrolável que sai rasgando alma à fora
Te amo, de modo que me fere essa sua distância e me assusta esse meu querer

Amo, como quem ama sem escolha
Amo, sujeito à estupidez e tolice
Amo, como quem brinca com fogo sem saber que queima

E de brincar assim, tão contente e distraída
É que de amores por ti acabo me perdendo dentro da imensidão dessa perda de mim mesma
E se me perco é porque te encontro e nessa perda te faço meu abrigo

27 outubro, 2012

Sopro do dragão


Eu fiz dezoito anos, eu fiz dezoito anos e não escrevi nada. Talvez porque não signifique grande coisa, talvez porque eu não saiba o que, ou como dizer. Eu estou acabando a escola, eu estou acabando a escola e ainda não preparei nenhum dos meus discursos mentais enquanto encaro o espelho e me teleporto pra longe de onde esteja. Eu me apaixonei, eu me apaixonei e não escrevi nenhum poema lindíssimo. Eu cortei o dedo, eu cortei o dedo e pus band-aid. Mas ele me incomodou, o tirei e comecei a escrever isso aqui.

Eu tinha um sonho, um querer inexplicado, uma vontade de seja lá o que for "quero dar aula". Eu perdi, substitui, esqueci, sei lá o que me aconteceu. Eu tive uma educação musical autodidata, por assim dizer, que me criou. Eu fui a um show do que "continuou" dessa minha banda favorita, e chorei, chorei rios. Chorei descontroladamente quando fizeram menção ao meu cantor favorito, e cantaram Pais E Filhos. Chorei como uma criança, chorei como quem perde um ente querido, chorei como se meu coração estourasse. E estourou. E estoura. Estoura toda vez que algo bonito me acontece.
Eu discuti com uma professora e a vi na rua semanas depois. Nos abraçamos. Eu chorei. Eu dei lugar a uma mulher com criança no colo, recebi um sorriso de quem assistia a cena, eu achei bonito. Eu dormi no ônibus, quase perdi o ponto, quando levantei em meio ao susto um velhinho, que estava sentado do meu lado, me desejou bom descanso, meus olhos lacrimejaram. Na aula de filosofia, depois de tanto implicar com o professor e nada mudar, me calei. Me calei e chorei quando um dia ele disse que perdeu o gás, que não tinha mais objetivos, que "tinha" tudo o que queria, porém não era feliz na essência. Eu chorei também quando vi heróis meus chorando, mostrando que os sonhos deles também são frágeis. Que são heróis, porém humanos. Eu chorei quando me contaram seus caminhos percorridos, ou quando contaram o caminho de outros. Um caminho que quero percorrer.
Eu chorei quando, hoje, no fim da aula no pré-vestibular que curso, meu professor de português (o mais mongol, feliz e saltitante lá presente - vale ressaltar) escreveu no quadro uma parte de Metal Contra as Nuvens e deu um discurso de fim de ano. Meio não querendo ser meloso demais, meio já sendo. Eu chorei, chorei e choro invariavelmente.

Decidi fazer psicologia, entender mais o nosso "eu", como ele é formado, como reagimos a várias coisas, como elas nos afetam, influenciam, condicionam. Acho que é isso, fui condicionada a chorar em alguma parte da minha vida. Sem dúvida fui condicionada ao choro, basta qualquer um citar Legião. Sei que sou redundante, sei que sou chata, mas acho que não há palavras que resumem esta coisa monstruosa que surge em mim quando o assunto é esse.
 Li um pouco e ouvi um bocado sobre budismo, matar o ego. Foi bonito e tal, evito o "eu", mas às vezes ele me surge, toma conta. É bom saber que há algo seu, que te descreve, toca. Algo que lhe serve, invariavelmente. Algo construído, em meio a dor, felicidade, vazios e todo o resto.

Tenho dezoito anos e vi tão pouco da vida, me sinto meio mal por escrever assim, como quem sabe dela. Deve ser normal, deve ser saudável até. Adiar este momento de catarse deve ser corrosivo à alma. Porque, olha, tudo muda! Se eu escrevesse esse texto ano passado estaria repleto de uma felicidade amena, calma. Há dois anos talvez transbordasse melancolia e há alguns 3 anos estaria esbanjando sonhos, à mil e um pés daqui. Cheia de planos, vontades, fome de ver. Ver o novo, ver além, ver o azul celeste.
Talvez eu devesse estar cheia de planos e euforia, talvez seja normal essa coisa, por vezes meio esquisita, que sinto. Meio procrastinando, meio sem gás, meio apertada entre prazos. Meio esmagada entre cobranças que, mesmo não as cumprindo, me esmagam. E esmagam mesmo!

"Eu nem sei porque me sinto assim, vem de repente um anjo triste perto de mim", acabou de me dizer Renato Russo. Talvez seja medo, ou um choque de realidade que começa a me fazer efeito. Mas quem vê assim me acha por demais triste. Não se preocupem, se alguém chegar a me ler. Ando bem, ainda usando o exagero poético que não largo nem por nada dessa vida.
Talvez me falte tirar mais o band-aid. Escrever é mesmo isso, sangrar abundantemente, chorar sem pudor, Aliás, ser Caroline é isso. Não sei se disse a vocês, mas também não gosto de fazer aniversário. É toda uma pressão urbanóide que me enlouquece. Não, por favor, não me cobrem felicidade no meu aniversário, só me deixem ser eu. Nem sou tão triste assim, talvez seja exagerada. É, exagerada eu sou!
Não sei o que escrevo aqui, mas sei que ajuda. Quando for psicóloga vou sugerir aos meus pacientes a escreverem o que sentem, mesmo de maneira mais "grossa", sem "técnica", que seja. A experiência em achar as palavras certas pro que sentem vem com o tempo. Mas que ajuda, ajuda! Mesmo que eu chegue ao fim desse texto me culpando por ter conjugado tanta coisa em primeira pessoa, dito tanto de mim.

Eu queria agradecer quando comecei. Queria dar foco, a esse professor, a citação. Agradecer pelas lágrimas que me arrancou, mas adivinhem quem se perdeu no meio do caminho novamente?!
Por semi-começar tantas coisas e terminar tão poucas, me sinto culpada. Acontece, é o que dizem. Comigo acontece sempre. Não sei se me desinteresso, se perco o ânimo, se não sou capaz de realizar o que almejo. Sei que fica muita coisa incompleta, inacabada. Tenho mania disso, de por um fim lindamente pontuado em tudo. Coisas em aberto nunca me chamaram muita atenção, sempre me causaram muita dor de cabeça. As pessoas esquecem, não sentem culpa ou remorso e, enquanto isso, eu remoo dolorosamente cada mínima lembrança dentro de mim. No final vira tudo culpa, arrependimento. Procuro não pensar muito, pra ver se a culpa não vem, mas no fundo fica aquele sentimento inconveniente mostrando que não foi resolvido. A verdade é que eu idealizo muito, desde pequena ensaio mil e um discursos em frente ao espelho e, pelos meus cálculos, creio não ter feito nenhum deles com êxito. Os poucos que tentei saíram gaguejados, pausados, atropelados, com faltas. DESASTROSO define.
Nem escrevendo me sinto bem representada, há sempre uma lacuna. Sou ruim de memória às vezes, isso deve atrapalhar. Nunca lembro dos motivos pelo qual possam ter me magoado, numa discussão se optarem por bancarem o inocente, ganham! Sou péssima em guardar a culpa dos outros, porém a minha, ainda que não seja uma culpa, ou que não seja minha, não perco, não esqueço ou apago por nada .Queria poder dizer tudo isso em um poema, em um texto, mas não aconteceu. Me sinto meio muito patética com discursos tão abertos. Digo, apoio essa política de discurso aberto. Tudo tão mais fácil de compreender se cada um disser o que lhe agrada e o que causa o contrário. Dizer do que gostam, dizer o que sentem. Mas acho que acaba por faltar um mistério. Na realidade é tudo bem complicado, exemplo: na sociedade comunista nos faz falta uma sociedade em que possamos crescer, nos diferenciar em alguns aspectos. Há a necessidade, quase/ou biológica, de uma meritocracia. Já no capitalismo de tanto crescermos, acabamos por demais nos desigualarmos dos outros. Uso destes exemplos porque ainda não me conformo com o mundo sem uma organização que dê certo. Talvez argumentem, os anarquistas, que é a necessidade de organizar que ferra tudo. Não sei, acho que não também.

A capacidade de ser reinventar espero que exista mesmo. Acho que precisarei dela com fervor de ontem em diante, sim, de ontem mesmo. Mas que meus olhos não mudem, espero também. Quero continuar a ver
tudo com a capacidade de me emocionar que tenho hoje. Não sei se devo pedir pra que ela aumente, sou (no geral) bem chorona, bem bobinha, bem tolinha. Sou mesmo, e me orgulho. Acho que falta um pouco disso em todos, essa coisa tola de gente sonhadora. Olhe só, se tem faltado até e mim, imagina em quem não tem o hábito? Deus, se você existir mesmo, dê mais amor a essa gente. Permita a elas mais sorrisos, abraços mais gostosos e gargalhadas intermináveis. Que amem não só com o coração, com a mente ou o corpo. Mas que amem com os olhos, e a todos. Que amem as tardes virando noite de azul  celeste para azul marinho, enquanto as luzes se acendem.Que amem o despertar e os sorrisos que recebem. Que amem e sustentem e fabriquem e não deixem os sonhos morrerem, os brilhos dos olhos se apagarem sob hipótese alguma.

Tenho dezoito anos e meus problemas se resumem em passar no vestibular e entregar meu trabalhos escolares atrasados antes que a paciência dos meus professores se esgote. Tenho dezoito anos e crises existenciais de hora em hora. Tenho dezoito anos e uma fome de leão no exato momento. Tenho dezoito anos e não cresço mais, não tenho mais a desculpa da fase de crescimento. Tenho dezoito anos e isso não faz nenhuma diferença. Tenho dezoito anos e vi pouco da vida, mas necessito prometer a mim mesma que quanto mais ver, e espero ver com todo esse amor do qual falo, mais escreverei. Mesmo em catarses gigantes e pessoais. Mesmo que não em versos se assim for.


E que não fique suspenso o texto declamado que me levou a escrever isso aqui:

E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.





23 outubro, 2012

Declarar amor


Achei esse texto outro dia, perdido entre alguns outros.
 Foi feito para um concurso, 
o tema deveria ser algo como "declarar o seu amor"


Declarar amor é suicídio, ta comprovado! Se jogar do precipício, queda-livre, pular de para-quedas... A verdade é que amor é esporte radical e a adrenalina vicia. O amor nasce quietinho, disfarçado de amigo, de paquera boba, e quando se dá conta, puft!, tarde demais, você já pulou do avião.
Declarar amor torna tudo mais real, mais palpável, mais verdadeiro. Transfigurar todas aquelas idealizações que você já fez antes de dormir em palavras, quando o sono não vinha e rolar na cama por horas sorrindo sozinha era o que acontecia. "Olha, desculpe eu te falar assim, meio diretamente, mas é que eu amo você", já imaginou?! Pular do avião não é tão fácil assim não, é preciso surto de loucura. É transformar todos aqueles sorrisos bobos em coragem, juntar com taquicardia e transformar em palavras o que o sorriso dele lhe proporciona a cada vez que o vê.
Pra amar é preciso antes de mais nada, loucura! Loucura pra pular do avião, pra admitir, pra aceitar, pra se olhar no espelho e ensaiar o discurso, o pulo, o salto. Depois que se pula não há mais nada o que fazer, se não esperar, esperar que a gravidade faça o resto. Quando a gente ta no ar, despejando em palavras todo nosso sentimento, despencando em um céu de emoções que anoitece em palavras ditas numa lufada de coragem, é tarde demais pra se preocupar em puxar a cordinha do para-quedas. É tudo ou nada. Quando a gente ta no ar, dizendo em voz alta o quão a presença dele nos é especial, a gente só torce os dedos com força e pede pra que o para-quedas nos proteja. Porque pra declarar amor, é preciso se amar também, se amar bastante ao ponto de se dar uma chance de correr riscos, de sentir adrenalina, de pular do avião, de dizer em voz alta tudo aquilo que o seu coraçãozinho já sabe de cor. Porque amar é ato de coragem, amar é queda-livre, mas declarar amor é mais ainda, é olhar pra quem se ama e convidar "pula comigo?".

27 setembro, 2012

Desse amor quinzenal que não se explica


Eu soube que seria assim, eu senti. Foi quando fechei os olhos e me senti plena, e calma. Ou quando no meio do filme, ou da noite, parei por instantes pra observar o luz da tela iluminar seu rosto, ou seu sono pesado. Algo já vinha me avisar, veio pra descartar o medo, veio me preparar pra você.
Difícil aceitar, não? Difícil entender, lidar, reconhecer quando está dando certo, depois de tantas tentativas. Sim, ei, você! Estamos dando certo, nós dois, e essa coisa monstruosa, gigantesca crescendo dentro da gente. Afeto, paixão, amor, não sei, não preciso saber, preciso só, apenas, e tão unicamente, te ter.
E essa saudade que me mata, e esse nosso namoro quinzenal, que de quinze em quinze multiplica as saudades e de divide o tempo. E o peso, e o teu corpo, que já não fica mais aqui, me esquentando, me protegendo, me completando. O despertar que, sem você, nunca é digno de bom humor. As segundas que se tornam fontes de tormenta porque te dizer "até logo" arranca parte minha. E quando você se vai, menino,  tudo fica tão vazio, tão ansioso, tão nostálgico, o teu calor vai se perdendo, e se aloja em mim esse buraco imenso que tua saudade cria, que tua lembrança cutuca.
E quando tu vens, é como dizem "se tu vens às quatro da tarde, desde às três eu começarei a ser feliz". Parece que vale a espera, o tamborilarr dos dedos, o rangir dos dentes, as mordidas no lábio e a unha roída. Porque quando tu vens, e tu, por meu bem, sempre vens, é como se não existisse força gravitacional que me prenda à Terra, é de você que exala a gravidade que me prende. Não existe redor, nem tempo, muito menos espaço. Porque quando tu vens, bem querido meu, é quando me vou pra bem longe daqui, me abrigo em teu corpo, me acalento em sua alma e me aposso dos beijos teus, apoiados por teus abraços, tão confortantes estes, que desde já espero seu retorno, antes mesmo de dizer adeus.

13 setembro, 2012

Como nunca andamos

Como anda aquele nosso amor que deixamos passar?
Como anda você, que perdeu o nome, perdeu o endereço, desapareceu?
Como anda nós dois, como andaríamos se não tivéssemos soltado nossas mãos?
Como estaria aquele nosso amor, aqueles nossos sorrisos, planos e alegrias?

Como anda você, que já não está mais aqui?
Como anda você, você que não está nem mais aí?
Por vezes penso em você, penso em nós, no que seríamos, no que éramos

Como anda você, que não vejo mais, não ouço mais e, por vezes, nem lembro mais?
Como anda você que brotou, surgiu, sumiu?
Como andam nossas noites, nossos amores mal declarados, nossas entrelinhas?
Como andaríamos agora, se nunca tivéssemos desistido de nós?

15 agosto, 2012

blablabla pra variar

  (Acredite, é pra ler ouvindo isso)



A gente precisa de tudo pra perceber que na verdade não precisa de nada. Eu sei, é clichê, mas é que não tem como não ser, sou uma puta clichê, todos sabemos disso. Esse meu discurso meio wannabe diferenciado às vezes não diz metade do que os grandes clichês dizem.
Quando eu era pequena e passava o dia com minha prima, depois de colorir milhares de desenhos, montar os mesmos quebra-cabeças de sempre e pintar minha cara de tinta guache, dormíamos com o rádio ligado, baixinho, tocava quem sabe Jota Quest, ou essas bandinhas que sempre tocam de noite. Todo esse clima me lembra também a cidade escurecendo e as luzes amareladas, me lembra passar no banco de trás do carro, esticando o pescoço pra ver as luzes amareladas por toda a avenida, e a rádio, a música tola de fundo. É tão tolo, bobo, infantil, nostálgico. Acho que nunca fui uma criança normal, me lembro que ao dormir na casa de uma outra prima ao entardecer, eu ia pra longe de todos, pra uma parte isolada do jardim, e olhava pro céu, pro dia, pra tarde que virava noite. Dava vontade de chorar quando fazia isso, eu me enganava, pensava que era saudades de casa (sim, eu estava 1 tarde fora de casa, e isso era muito punk, meus caros), mas na verdade era só essa minha alma meio embolada se manifestando do modo que encontrava para fazer isso, e claro, com a música de fundo...
Eis que então perco meu foco, mesmo sem ter um. Eu ia falar das coisas simples, eu acho. Pois bem, quando lembro e quando os funks-meio-que-detestáveis permitem, ligo a rádio e vem toda aquela atmosfera boa, dá saudade da simplicidade. Saudade é outra coisa muito enrolada, assim como eu, sentir saudades é ruim, triste, porque na maioria das vezes é só uma lembrança de algo que não pode mesmo voltar. Eu sei, eu sei, nem pensem em comentar "ah, mas quer dizer que foi bom", eu sei, já disse, mas é que dói saber que coisas tão boas, por mais que abram caminho para outras coisas muito boas, não voltam mais. Viver é único, e a gente percebe isso assim, quando liga o rádio.
Eu iniciei esse post ouvindo a música que me criou todo esse sentimento, mas queria dizer que as coisas simples mesmo assustam, porque elas não são premeditadas, não são pré-aceitas, moldadas e os carambas todos, e assustam pela intensidade que trazem consigo, como o amor, que eu sempre falo, sempre esperneio, mas que se chegar, e se chegar, eu não vou reconhecer, não vou saber falar, sentir, agir... E eu poderia falar sobre isso, mas quero deixar aqui só a  imagem das cores do visor do rádio na noite fria caindo, enquanto eu, cansada de pintar e ser pintada de guache repetia pro meu tio que eu não viraria vascaína "nem que a vaca tussa" (sim, eu me expressava muito bem já naquela época).
E essa sou eu, depois de 2 anos e meio usando o blog finalmente no formato em que blogs de verdade se baseiam, em textos sem grandes propósitos, meio diário, meio sei lá. Meio me expondo, meio sendo eu mesma, sempre usando "meio" alguma coisa pra explicar algo que é inteiro, tão inteiro que, se páh, até transborda.
Boa noite, e se tiver algum leitor aí, me desculpe (ou não, até porque o blog é meu) pela mudança, ou pela música, mas foi o que consegui, o que me tocou, o que me lembrou e provocou toda essa minha baboseira aqui. Por menos listas de reprodução, e por mais rádios, me despeço.

YEAH YEAH TCHUBIRAWN DOWN DOWN

10 agosto, 2012

E lembrar, lembrar acima de tudo que ainda há pessoas doces, atitudes nunca antes imaginadas e o tempo, pra nos trazer com sabedoria tudo aquilo que deve ser nosso.

06 agosto, 2012

Sobre verdades pontuais e anúncios


Há uma parte de mim, que não importa o quão lúcida, simples e básica eu me encontre, sempre se encontrará bagunçada. Tanta sobriedade para quê mesmo?! Assim me lembro porque meço palavras, ou porque parei de medi-las, e junto parei também de proferi-las.
Uma parte dentro de mim não se importa com o quão explicada e plena eu esteja, sempre se encontrará atada a nós, para me lembrar da insustentável leveza do ser. Talvez nem de fato importe minha sobriedade, minha maturidade, minha ponderação. Talvez bêbada o suficiente eu consiga desatar esses nós. 
Devo, não nego, ter medo das palavras que uso. Admito que neguei, pois não devo, mas com certeza, temo. Posso pensar e falar de você todo dia, a toda hora, mas te contar isso faz dessa verdade instável. Parece que então, de repente, por mais que a corda continue a mesma, e o equilíbrio também,  a confiança do equilibrista muda. Sempre digo que falar, pronunciar, a-n-u-n-c-i-a-r, torna tudo mais concreto. O que explica esse medo do real? É que sou demasiado acostumada com o abstrato, o real me assusta, tornar algo concreto é prendê-lo à imagem, à forma. 
Acompanhe-me se ainda não se perdeu, e se se perdeu, por favor, continue! Desse meu jeito enrolado, digo ainda boa parte nos olhares assustados, não me deixe sozinha, ANDIAMO, te mostro o caminho! Sentimentos, pensamentos, conceitos são, de alguma forma, verdades. Se te gosto, e sou imbecil o suficiente para admitir isso, te digo: "te gosto". Seria então tornar uma verdade, um sentimento, uma verdade pontual, em coisa concreta. Entende o equívoco? Anunciar é, para mim, tornar concreto. Mais real, mais palpável, mais imutável. É prender uma verdade, não absoluta, mas pontual e, por algumas vezes efêmera, em uma forma. Emoldurar, concretizar e enformar é tão absoluto, tão não-mutável, diferente da verdade, tão bailarina nos extremos do existir.
 Eu sei, esse papo é meio esquizofrênico, mas como falar então que eu não digo as mil doçuras que a ti em pensamento destino, pois isso seria tornar oficial verdades que podem deixar de existir ou se transmutarem no instante seguinte? O eu te amo não é pra sempre, é pontual, e o pra sempre... O pra sempre também, e ele se limita a breves instantes, é como um eterno F5.
Não é por mim, eu sobreviveria, e talvez até sã, às mutações das minhas verdades, mas temo que não aprendas como funcionam de forma efêmera, ainda que por muitos instantes, ou até durante todos os meus instantes, ela esteja presente [a tal verdade pontual]. E talvez essa seja uma verdade imutável, a total instabilidade de minhas verdades e o receio de machucar ao jurar uma afeição de instantes.
Quantos instantes me ocupa, há quantos instantes me habita? Meus instantes são demorados, mas ainda são instantes. E instantes podem ser tão eternos [e ternos] às vezes, que posso até te amar por toda eternidade só pelo instante em que a luz da tela ilumina seu rosto no escuro, e então não existe mais nada.
Tem um livro que diz (diz, diz e repete):  MAIS ALÉM,  MAIS ALÉM, MAIS ALÉM. Será que há algo mais além? Que a gente vai aprendendo, anexando, digerindo? Será que há algo além dessa verdade pontual, ou desse instante eterno? No livro ele pergunta "mais além?", e ela, tão sábia, leve, responde: "nada além".

25 julho, 2012

This isn't giving up, no this is letting go



E talvez seja assim que o amor ou esses sentimentos urbanóides de beijos sujos, com palavras ditas com sorrisos cheios de malícia, funcionem. Não é desistir, é deixar ir. Por que no fundo a gente sabe que é doentio demais levar a sério esses amores, esse taquicardia que a gente deixa nascer em bares imundos enquanto a noite vira dia, a gente se debruça sobre o balcão, pede uma, duas, três, e vê o quão bonito pode ser, mesmo sem aquele romantismo, aquela doçura que o amor idealizado deve ter.
A gente vai por aquele lance carnal, aquela verdade estúpida, o jogo pisar e ser pisado. A gente gosta de apanhar, de correr atrás, chorar, fazer birra, declarar. Mas no final, a gente abre mão, deixa ir, com narinas inflamadas observando a beleza do céu laranja do dia ao nascer. O laranja, a cor linda que não é nada além da sujeira, da poluição combinada com sei-lá-o-que e torna tudo tão bonito, mas ainda sujo.
A gente chora por cada bobagem, bom, não sei vocês, mas eu choro por cada idiotice. Veja bem, eu aqui, achando bonito um desses amores sujos indo embora, feliz e bonito como o pôr do sol laranja e imundo, cheios dos erros que mantemos vivos todo santo dia. Seja dia de bater, apanhar, correr ou deixar ir. Ainda que seja esse amor sujo urbanóide de beira de esquina fedendo a mijo dos mendigos e seus esparadrapos podres.
Será que amar implica nisso? Deixar ir, voar, pra não se machucar mais, pra não deixar que vire algo feio e rancoroso? Como diria alguém, "deixo as coisas que amo livre"? Amar ao ponto de querer o melhor, de deixar voar, escapar, sair do alcance, perder de vista?
O amor e suas diversas faces, do compartilhar o sono ao deixar ir. É tudo amor no final das contas, quando a gente chora porque é bonito, porque é leve, porque deixamos ir, sem pestanejar, pra não matar o amor, e deixá-lo então vivo para sempre. E que a fé no amor nunca morra, eu peço baixinho, choramingado ao que estou tornando livre.

23 julho, 2012

Às histórias de amor, beijos apaixonados e romances que nunca aconteceram



O que será das histórias de amor que não aconteceram? As que ficam pairando infinitamente sobre o ar, no “e se”, no não beijo, no não toque. As histórias de amor que nascem e terminam em conversas infindáveis, em brincadeiras de sorrisos encantadores e em subentendidos escrachados. No amor bonito, puro, virgem, no querer sem fim, na aparição surpresa ou nos gestos quase não notáveis, senão por cada minuciosa observação. O amor que nada constrói de material, mas que de abstrato se torna imortal.
Os amores que não aconteceram, os corpos que não se somaram e os lábios que nunca se tocaram. Os risos que foram se calando, por terceiros, por problemas, por amar demais e não conseguir suportar a impossibilidade do toque, do cheiro e da distância.
Os amores que nunca se consumaram, nunca começaram no mundo material, no mundo do entrelaçar dos dedos. As tantas histórias, lindas, belíssimas, puras e abstratas que não morrem, não desaparecem e nem se dissipam. As histórias mais perfeitas dentro da imperfeição que implica amar.
A sombra clara, que no meio da multidão se aproxima e lhe sorri, surpreende, e lhe grita selvagemente ao coração tão cativado pelo o que não dizem nas palavras, mas entregam nos olhares e sorrisos meio tortos, meio escondidos, meio sem querer.
A sombra chega, se transforma em corpo, se põe diante de mim. Eu, tola, sonho com o dia em que não só nossas almas se encontrarão, mas nossos corpos conhecerão o calor do toque e o conforto do abraço. Mas o corpo se vai, e leva junto toda a esperança, e com ela os sorrisos tortos e sem explicação, os pensamentos contínuos ao objeto amado, o magnetismo dos corpos, o anseio gritante do tão almejado toque, a fé no amor.
Enquanto ao amor que teve e deixou escapar, sobra a sombra na multidão, nunca se aproximando ou se afastando. Nem sequer perdendo a nitidez. Mas sempre presente mostrando o quão perfeito é o ideal, e sussurrando ao pé do ouvido as palavras doces dos amores que se calaram e fincaram moradia no espaço atemporal, estacionados na eternidade.

22 julho, 2012

Pobre destinatário de confuso remetente



Te escrevo entre folhas caídas do outono, ora bonitas, ora tristonhas
Te escrevo entre lágrimas e sorrisos, e se me atrevo mais, choro até por isso
Te escrevo meio assim, sem querer, e quando caio em mim, aqui está você

Te escrevo desse meu jeito meio torto, ora prosa, ora poesia
Meio sem formato, sem gramática, sem forma
Nada parnasiano, mas tão rico em sinceridade, que quem liga? Quem nota? 
Me diz quem, de fato, se importa? 


Te escrevo sem porquê, sem na verdade entender
Nem sei se me lê, mas escrevo-te para saber
Saber na verdade nem sei mais o quê
Talvez o quanto me ocorra, mas pra isso não seria preciso escrever

Digo tanto coisa, a quem digo nem mais sei
Não escrevo a ti por fim, escrevo será, portanto, a mim?

Deixando em palavras o que não mais faço questão de entender
Junto alguns verbos no gerúndio à continuidade de tudo aquilo que paira no espaço
No infinitamente não ser, o que não se dissipa, mas também não ousa desaparecer

Vejamos por aqui, a quem falo? A quem escrevo?
A quem apresento tantos amores em formas indefinidas de urgente anseio?


O que escrevo, nada mais é do que me passa. 
Passam por mim tantos bobos sorrisos e suspiros sem graça, que escrevo a quem me fala, ainda que erroneamente direcione minha fala.



24 junho, 2012

Cuida de mim - O Teatro Mágico



"Pra falar verdade, às vezes minto
Tentando ser metade do inteiro que eu sinto
Pra dizer as vezes que às vezes não digo
Sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo
Tanto faz não satisfaz o que preciso
Além do mais, quem busca nunca é indeciso
Eu busquei quem sou;
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto finjo, enquanto fujo.

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim
Sou da cor, do tom, sabor e som que quiser ouvir
Sou calor, clarão e escuridão que te faz dormir
Quero mais, quero a paz que me prometeu
Volto atrás, se voltar atrás assim como eu.

Busquei quem sou
Você, pra mim, mostrou
Que eu não sou sozinho nesse mundo.

Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo que sou quem eu queria ser.
Cuida de mim enquanto não me esqueço de você
Cuida de mim enquanto finjo, enquanto fujo, enquanto finjo."

18 junho, 2012

Entre aspas: Recordações do escrivão isaías Caminha

Enquanto fazia a prova da UERJ me deparei com uma questão que um amigo levantou outro dia, escrever para ser comprado. O assunto da conversa não era exatamente esse, e tangenciava outros vários, mas lendo este texto na prova na qual me fudi e fiz esse final de semana, me achei contextualizada com o dilema do escritor. Deixo aqui o texto, boa leitura!

"Eu não sou literato, detesto com toda a paixão essa espécie de animal. O que observei neles, no 
tempo em que estive na redação do O Globo, foi o bastante para não os amar, nem os imitar. São em 
geral de uma lastimável limitação de ideias, cheios de fórmulas, de receitas, só capazes de colher 
fatos detalhados e impotentes para generalizar, curvados aos fortes e às ideias vencedoras, e 
antigas, adstritos a um infantil fetichismo do estilo e guiados por conceitos obsoletos e um pueril 
e errôneo critério de beleza. Se me esforço por fazê-lo literário é para que ele possa ser lido, pois 
quero falar das minhas dores e dos meus sofrimentos ao espírito geral e no seu interesse, com 
a linguagem acessível a ele. É esse o meu propósito, o meu único propósito. Não nego que para 
isso tenha procurado modelos e normas. Procurei-os, confesso; e, agora mesmo, ao alcance 
das mãos, tenho os autores que mais amo. (...) Confesso que os leio, que os estudo, que procuro 
descobrir nos grandes romancistas o segredo de fazer. Mas não é a ambição literária que me 
move ao procurar esse dom misterioso para animar e fazer viver estas pálidas Recordações. 
Com elas, queria modificar a opinião dos meus concidadãos, obrigá-los a pensar de outro modo, 
a não se encherem de hostilidade e má vontade quando encontrarem na vida um rapaz como 
eu e com os desejos que tinha há dez anos passados. Tento mostrar que são legítimos e, se não 
merecedores de apoio, pelo menos dignos de indiferença.
Entretanto, quantas dores, quantas angústias! Vivo aqui só, isto é, sem relações intelectuais de 
qualquer ordem. Cercam-me dois ou três bacharéis idiotas e um médico mezinheiro, repletos 
de orgulho de suas cartas que sabe Deus como tiraram. (...) Entretanto, se eu amanhã lhes fosse 
falar neste livro - que espanto! que sarcasmo! que crítica desanimadora não fariam. Depois que 
se foi o doutor Graciliano, excepcionalmente simples e esquecido de sua carta apergaminhada, 
nada digo das minhas leituras, não falo das minhas lucubrações intelectuais a ninguém, e minha 
mulher, quando me demoro escrevendo pela noite afora, grita-me do quarto:
- Vem dormir, Isaías! Deixa esse relatório para amanhã!
De forma que não tenho por onde aferir se as minhas Recordações preenchem o fim a que as 
destino; se a minha inabilidade literária está prejudicando completamente o seu pensamento. 
Que tortura! E não é só isso: envergonho-me por esta ou aquela passagem em que me acho, em 
que me dispo em frente de desconhecidos, como uma mulher pública... Sofro assim de tantos 
modos, por causa desta obra, que julgo que esse mal-estar, com que às vezes acordo, vem dela, 
unicamente dela. Quero abandoná-la; mas não posso absolutamente. De manhã, ao almoço, na 
coletoria, na botica, jantando, banhando-me, só penso nela. À noite, quando todos em casa se 
vão recolhendo, insensivelmente aproximo-me da mesa e escrevo furiosamente. Estou no sexto 
capítulo e ainda não me preocupei em fazê-la pública, anunciar e arranjar um bom recebimento 
dos detentores da opinião nacional. Que ela tenha a sorte que merecer, mas que possa também, 
amanhã ou daqui a séculos, despertar um escritor mais hábil que a refaça e que diga o que não 
pude nem soube dizer.
(...) Imagino como um escritor hábil não saberia dizer o que eu senti lá dentro. Eu que sofri 
e pensei não o sei narrar. Já por duas vezes, tentei escrever; mas, relendo a página, achei-a 
incolor, comum, e, sobretudo, pouco expressiva do que eu de fato tinha sentido. "


LIMA BARRETO
Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2010.

04 junho, 2012

pra não esquecer da 1º pessoa do singular

Oi, querida eu. Há quantas anda? Li algo agora interessante, não tão interessante quanto escrever pra si mesma. É idiota, mas o quão mongoloide não sou querendo esconder-me atrás de fechar os olhos, respirar fundo e controlar a voz?! Digo, se fosse um texto, um poema qualquer, de amor, rebeldia ou tristeza, não hesitaria em escrever. Ainda que eles sejam integralmente eu, parece que estou menos exposta. Talvez seja a certeza de minhas palavras direcionarem ao local errado que as lê, ou então seja somente natural. Natural este que eu muito bem observo, anoto, estudo e percebo. Um natural tão, mas TÃO, percebido, que ainda que inconsciente, dança nos limites do que o transforma consciente.
Perdendo o fio da meada, e agora correndo atrás dele, volto ao que li. Li uma amiga parabenizando outra, e citando que as meninas que eram se orgulhariam das mulheres que se formaram. Será que comigo será assim? Digo, era tão fácil saber quem eu era, e o que queria. Hoje em dia a única certeza que tenho é que nada do que antes era absoluto, hoje é certo.
Quando eu era do primeiro segmento do fundamental, até a 4º série, era simplesmente ser, preparar a terra e começar a plantar pequenas sementes do que viria a fincar raízes nos anos conseguintes. Mas será que o que sou hoje é fruto daquela semente plantada e germinada até alguns anos atrás? Digo, é claro que haveriam mudanças e coisas com as quais eu nunca contaria, quando previa um futuro ou algo semelhante a isso, mas ainda assim, talvez isto estivesse dentro do planejamento do crescimento da árvores, dos galhos, das flores e frutos.
O meu medo não é mudar, mudar é bom, o que nunca muda é plausível de questionamento. Mas o meu medo é me perder, dentro de uma conduta tal qual eu mesmo crio, pra ser uma pessoa melhor, sabe? Sempre fui tão coração, tão impulso, tão respirar e sorrir ideologia, mas desde algum tempo pra cá eu venho me policiando, procurando ser mais razão (é claro, pra evitar muitas dores que ser emoção causa). Respirando, deixando de gritar, controlando a voz, extinguindo as palavras não gentis, e assim se segue. Me pondo no lugar dos outros, fazendo sempre o bem, procurando ser sensata, e sei lá, mais o caralho à quatro. Deixando de chorar, de dizer que eu amo, que eu odeio, que eu sofro, pra fazer disso material que forme degrau, pra que eu chegue sei-lá-onde e sei-lá-porquê.
O receio que me ronda, é me perder no meio do caminho. Se minha essência fosse a Carol com lágrimas ao ver algo bonito e ao se enraivecer? A que grita, xinga, sente, chora, escreve, vive, sonha? Onde já se viu eu me questionar inúmeras vezes por escrever e publicar algo assim, quando o que eu mais faço, e só faço, é me expor, e ainda assim não querer tomar essa 1º pessoa do singular?
Em algum momento eu devo ter me retirado da equação (e pode ter acontecido depois de tanto repetir isso pra mim mesma como solução de todos os problemas) e esquecido o caminho de volta. Ter ficado razão demais, sentida demais, machucada demais e então criado um trauma que não me permitisse o caminho da volta.
Mas quando a gente para, pensa, e não externa, é mais fácil. A gente não sofre, a gente não chora, e se chora, chora quieto, num canto, consigo mesmo. É fácil porque não falando e reforçando o que nos aflige parece que se torna mais fraca a ideia, e então ela morre, e morre sufocada. E vai tudo morrendo, e morre a gente também. Futuro de quem vive é a morte, eu sei, presente também, mas no gerúndio. Mas é só que, são tantos "mas" nesse texto, e os argumentos mais fortes sempre ficam depois do "mas", que eu não sei como continuar. Continuar o que digo aqui, olhando apática a então folha em branco, olhando apática como me torno lamentável tanto por ser emoção quanto por ser emoção.
Porque a gente grita, corre, foge, se esconde, finge não ver, não sentir, não ligar. A gente começa a procurar coisas que não existem, e denominá-las como não são, cavando cada vez mais fundo no vazio, e não sabendo onde parar, pois não há onde parar, porque já estamos parados, na inércia da crise, da vida, da rotina, do não-ser...
Já não sei mais o que escrevo, procuro não ler, mas acabo de lembrar que eu queria me perguntar ao meu eu-futuro, ou eu-passado se me orgulho do que sou agora. Já que no passado desejei ser razão, e no pretérito-perfeito nunca deixar de ser emoção. Espero poder me encontrar comigo mesma no futuro, e ler isso com um sorriso no canto, e olhos semi-molhados, pensando em como achava que toda aquela agonia no vácuo era forte e pra sempre, quando não passava de uma menina carente querendo um abraço e não ter vergonha de chorar, porque se diz pedra, mas no fundo, nem tão fundo, na superfície logo ao alcance de um simples toque, era gente. E gente chora, sente raiva, sente ciúmes, ama, diz amar, chora, deita, e por fim cai na inconsciência. Não que o sono cure, mas adia, e adiar, ainda que seja empurrar com a barriga, ainda que seja ser covarde, é o que a gente faz constantemente, até que do fundo de uma sarjeta imunda a gente se levante. E talvez seja isso, um ciclo, ou estou redondamente errada.
Se algo sei, é que vai passar. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas que tudo (ainda que desejasse que tudo não) passa. E o que fica é cada vez mais profundo, porque a gente para de cavar no vazio, e começa a criar cicatrizes, traumas, ou felicidades e memórias, e a gente vai se construindo e destruindo, e consertando e pondo defeito, vivendo de comédias e dramas, ciclicamente até achar um livro, ou uma frase, ou alguém que nos levante, e aí a gente esquece a dor, e o choro, e a cicatriz e toda a tristeza moribunda, e por fim acaba-se o que, em suma, nada se diz, mas tudo se regorgeia em palavras vazias, porque vazio ela está, vazio eu estou, assumindo em 1º pessoa aquilo que nem eu sei o que é, mas sei que passa.

28 maio, 2012

Em mim te grito. Em ti, me calo


Grito meu amor
te puxo pela camisa
ponho o pé na frente
tu não vê
tu não sente
tu não entende

grito mais uma vez
não obstante escrevo
escrevo em mil pedaços coloridos de papéis
entrego todos a você
você os guarda
saberá lá o que significa?

se você falasse, se você explicasse ou se entendesse
a minha dor passaria, minha aflição se calaria
ainda que rejeite, ainda que não o faça
se soubesse o que grito pra você a todo instante
e esse teu ouvido ocupado com outros tantos gritos não ouve,
e que essa tua voz assustada com outros tantos gritos abafa
se soubesse, se dissesse, se pudesse me ouvir

se paro de gritar, fere aqui dentro
se grito e não ouve, e nunca ouve, o grito fere mais,
finca mais, sangra mais
se acabasse minha voz de tanto gritar-te que meu pensamento toda hora a ti se destina
se perdesse a voz, se perdesse a fala, se perdesse os modos
se perdesse a estúpida coragem de dizer-lhe o que vos grito...
ainda que muda ficasse, que pra longe me mudasse, e da mente apagasse,
ainda assim, aqui dentro, em algum lugar numa esquina escura onde de ti se esconde minha dor,
tua lembrança permaneceria

se em minha voz em ti morresse,
se meus olhos se cansassem de te seguir,
e meu coração de por ti bater
ainda assim, ainda sobre tempestades, trovões e gotas grossas de chuva fria sobre mim
ainda assim, em mim essa aflição moraria

se te grito a todo instante, se te procuro,
vejo, imagino e lembro-te a cada momento
é repetindo pra mim mesma que deixar-te é a solução

se te escrevo novamente, é pra dizer que sou fraca,
ainda que grande bárbara me julgue
é pra pedir-lhe permissão, pra te gritar com o que sobra de minha voz,
antes que comece a doer só aqui dentro,
e que a dor me cale

11 maio, 2012

Da fragilidade de toda criatura




Preciso me esclarecer, me descobrir, me olhar, conversar comigo, afagar meu anseio e sussurrar ao meu ouvido a resposta óbvia e a palavra mágica que fará de tudo melhor. Que encherá de magia as vistas já cansadas das miragens muito gastas, da mente já limitada e dos pés cansados.
Preciso, mais uma vez me tirar da equação, ou me incluir de vez nela. Talvez até achar uma pra mim. Me sinto vagando, passando, sendo passada, sendo marcada e nunca mais marcando. Desistindo, cansando, fatigando, me despedaçando, perdendo cada pedaço de mim na curva ou no balançar da ponte instável que nem tem destino, nem tem outro lado, porque tá turvo. Tá turvo e ta intimidador demais, tá um pé-no-saco demais. Tá lágrimas caindo a toa demais, tá não-sei-o-que-estou-escrevendo demais, mas tem que ser, porque assim exorcizo meus demônios. Do que preciso agora, no entanto, é de achar meus anjos, meu anjo, algo assim, que dê mais um empurrãozinho, porque a lata-velha-tão-velha-da-tal-alma enguiçou outra vez.  Não, não enguiçou, mas o motor ta engasgando, ta falhando, ta se quebrando, se partindo, se enfraquecendo. Sozinho, calado, sem vestígios de uma alma fugitiva, só quietinha na sua, não sabendo nem chorar ou sorrir, só sabendo remoer o que em palavras não sai, em lágrimas não se esclarecem e em catarses sem nexo só se entravam nos não dizeres de uma mente tão mil-e-uma-utilidade-foco-zero, de força zero, de alma... de alma zerando, precisando de combustível.
Tá difícil saber, tá difícil entender, continuar, melhorar, se recuperar, dizer "tá, tá tudo bem! Comigo tá sempre tudo bem". Tá difícil, mas tem que ser, pra lição ficar bem guardada na memória. Como lista de palavras decorada, que ocupada, disfarça e não deixa ver que o vazio tá começando a machucar.






ALIÁS...Feliz 2 anos e 9 dias de blog pra mim!

25 abril, 2012

Deixa eu te cuidar


Faz assim, olha, deixa eu cuidar de você
deixa eu te mandar fazer a lição, sair do computador
ir pra cama cedo, trocar a roupa molhada
eu não peço muito, só me deixe cuidar de você
querer-te bem imensamente,
querer-te perto a toda hora
querer-te pra mim nem exijo, mas deixa eu cuidar de você!
Deixa eu afagar teus cabelos finos, acariciar seus ombros que carregam todo esse peso,
e dizer que é questão de tempo,
dizer que tudo passa, e que já já amanhece novamente
te dizer que tem um lugar especial, um telhado secreto onde as estrelas ficam mais perto,
te avisar quando for lua cheia pra que possas olhar,
e nem precisa pensar em mim...
Mas deixa eu cuidar de você, nem que de longe
deixa, vai, deixa eu cuidar de ti
não preciso te tocar, não preciso te sentir,
mas deixa eu te olhar, deixa eu te ver passar

Esse peso nas suas costas eu divido com você
mas me deixa te cuidar, me faz bem
porque quando te cuido, me cuido
ainda que não saiba, me cuido.
Me cuido porque te cuido, e se te faz bem, me faz bem
ainda que não tenha cogitado, tu me faz bem
te cuidar é me cuidar
te ter, é me ganhar

Deixa eu te cuidar, menino, prometo não fazer-te mal
cuidar de você é cuidar de mim
te alimentar, te conter, te amar, assim mesmo, de longe,
te proteger desse mundo imundo que coexiste lá fora, onde essa tua alma é bonita demais para existir
deixa eu proteger tua inocência, teu amor, tua pureza, teu eu
não peço nada em troca, nem precisa cuidar de mim
porque quando cuido de ti, cuido de mim
e quando afago teus cabelos claros e rebeldes, por mim, o mundo poderia acabar ali.
A morte seria bonita, com você em meu colo, ou ao alcance de meu olhar protetor
mas deixa eu te cuidar, menino, deixa eu cuidar do meu amor

17 abril, 2012

Entre aspas: Pálpebras de Neblina

"Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, ou até um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar. Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas, automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta, enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cânticos: "Não digas 'Eu sofro'. Que é que dentro de ti és tu? / Que foi que te ensinaram/que era sofrer?" Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo, o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama: nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia - coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical. Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban - filme. Resplandecente de infelicidade, eu subia a Rua Augusta no fim de tarde do dia Tão idiota que parecia não acabar nunca. Ah! como eu precisava tanto de alguém que me salvasse do pecado de querer abrir o gás. Foi então que a vi. Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega - aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo malpintado, cara muito maquiada, minissaia, decote fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar comum patético. Em pé, de costas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro, na esquerda um copo de cerveja. E chorava, ela chorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta na frente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria com as lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar - exposta, imoral, escandalosa - sem se importar que a vissem sofrendo. Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado por um mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia - uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, uma caixa de figos. Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha, dor de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando mais leve. Mas só quando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87: explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: carnaval, futebol. E lágrimas. Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza: cuidar dele faria com que eu me esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu "dói tanto", contei da moça vadia chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou "porquê?", compreendi ainda mais. Falei: "Porque é daí que nascem as canções". E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?"



Caio Fernando de Abreu


14 abril, 2012

Velha e Louca - Mallu Magalhães

"A boca fala do que o coração está cheio"

................................................................................
......................................................................................
.................................................................................
.........................................................................
...................................................................................
...........................................................
..............................................................................
....................................................................
.................................................................
......................................................................................
.................................................................................
.........................................................................
...................................................................................
...........................................................
..............................................................................
....................................................................
............................................................................
................................................................................

25 março, 2012


Se soa familiar? Que nada, bobagem!

15 março, 2012

E o mundo às costas


O bolo ta assando, o celular descarregou, se passar de amanhã você perde aquela promoção. A doutora ligou, disse que tinha janela no horário da sua yôga. Anteciparam a entrega daquela tua pesquisa que tava na pasta que perdeu e ainda não sabe. As pálpebras reivindicam descanso, o cabelo tá precisando cortar e o bolo queimou.
Fulaninha não te mandou aquele e-mail que devia, você fez sozinha, e não deu tempo de pestanejar, bater o pé, nem gritar umas grosserias. O celular parou de funcionar, e a operadora só sabe pedir "aguarde um momento". O tempo virou, o casaco ficou pendurado atrás da porta desde aquele dia em que caiu mostarda nele, tá manchado, não sai mais. O jornal na tevê, sabe-se lá por que diabos  ligada, diz que o dólar caiu,  Kadafi caiu, o World Trade Center caiu. Desliga a tevê, troca por rádio, e agora o vasco também caiu, diz a voz masculina do final da tarde, enquanto todos voltam, esgotados zumbis, pra sabe-se lá onde, talvez pra seus lares. 
Entre burburinhos e pôr do sol em céu poluído visto pela janela, uma música estrangeira acalma, "está tudo bem, hoje já foi" ela devia dizer, independente da língua. Esfrega os olhos, puxa da tomada o computador. Enquanto isso a quatro quarteirões dali uma gota de orvalho cai do alto de uma árvore anciã. E você cai no inconsciente. E o mundo, o mundo descansa (te cansa) às suas costas.
O dia nasceu ensolarado, e tá quente demais; choveu forte à tarde, choveu demais. O trabalho sumiu, o computador deu pau, caiu café no seu pé, a bateria do celular caiu, o bolo grudou na fôrma, o gás acabou, a luz venceu, o chuveiro não tá esquentando, o asfalto quente recebe água da chuva e o calor sobe, o ônibus cheio não se move até que entre o último passageiro. A passagem subiu, o despertador não tocou, o galo não cantou, você não acordou, você não gritou, não chorou, não sorriu, não dançou a valsa vienense, não perguntou por José, você nem ao menos morreu.
Contidamente, continuamos. E o mundo às nossas costas.

13 março, 2012

Mais uma vez "talvez"

Talvez eu devesse ir ler, talvez estudar, talvez dobrar as roupas ou as entulhar na gaveta. Talvez eu devesse ir visitar minha vó, ou comprar chocolate. Fazer as unhas, cortar o cabelo, fazer as sobrancelhas ou dormir.
Talvez eu devesse me afastar de tudo o que complico, de tudo do que fujo e cada vez mais me aproximo. Talvez devesse fugir pra muito longe, ou correr pra bem perto e encarar. Talvez qualquer atitude, até antagônica ao certo seria uma atitude mais plausível do que ficar aqui parada, como no final de cada jornada fracassada eu sempre fico, esperando algo se resolver. Porque nada se resolve sozinho, até quando eu sento a bunda na cadeira e espero o tempo ajeitar tudo, e o vento soprar e organizar naturalmente as coisas, é uma escolha que faço. A escolha de se acovardar e fingir que não é comigo, que é só como a corrente vai levando as coisas. Como se não escolher já não fosse a escolha de abrir mão de fazer do seu jeito, sabendo-se lá (ou não) como seria algo do seu jeito.
Sério que deixando passar, ou lutando, ou escolhendo, ou analisando.. Sério que tanto faz, eu vou sempre acabar patética, com uma tempestade dentro de mim, com borboletas que no estômago apodrecem rapidamente e me fazem mal?
Sei lá do que eu to falando, mas é que não precisa ter sentido ou razão ou seja lá o que você esteja procurando neste texto, talvez coerência, mas isso sempre me falta. Talvez não seja nada, seja só o vento soprando, e organizando naturalmente os grãos de poeira, areia, esperança, quiçá pensamentos.

05 março, 2012

Sou metal, raio, relâmpago e trovão

*Tive um sonho diferente dos que usualmente chamo de diferente. Sonhava que pediam pra me classificar  numa música da minha banda favorita. Eu pensava, pensava e qualquer faixa por mais linda que se chamasse era pequena demais, seria algo muito fechado, aí então lembrava desta e falava, é isso, essa é a frase! Isto que sou, porque isso quer dizer não apenas o que se escreve, mas o que a música remete. Eu sei, tolice, mas é que eu nunca tinha parado para ouvir esta música, não conhecia a letra e isso fez de tudo algo muito mais diferente e intrigante. "Sou metal contra as nuvens" eu enfim respondi no sonho e acordei.
I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.
II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.
Olha o sopro do dragão...
III
É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.
IV
- Tudo passa, tudo passará...
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.

21 fevereiro, 2012

Entre aspas

Por Camila Paier, em Calmila, calma Camila.






"Presentão caro, extravagâncias a dois, viagem internacional? Que nada. Tem atitudes tão mais simples - e que a gente tanto admira quando feitas - que essas sim, nos fazem sentir de dia ganho. Há quanto tempo não enche a sua namorada de beijos, até que a amada não aguente mais e parta para fazer o mesmo em cima de você? Ou envia assim, inesperadamente, e mesmo que seja uma palavras apenas como mensagem SMS, sinalizando um "estou aqui longe mas pensando muito em você" para que ela conserve de orelha a orelha um sorrisão pelo resto das horas? Pare e repense: é importante, e hoje em dia, nada mais pode ser considerado garantido. Quando regado diariamente, no formato de drops de carinho, paixão, ou atenção, fica fácil florescer apenas jantares contentes, beijos apaixonados e uma paz compartilhada que dá um bem danado.

É maravilhoso quando, mesmo com o passar dos meses, os beijinhos de esquimó continuam sendo dados, em plena tarde dominical, nosso cabelo tirado do rosto - enquanto conversamos - e sejamos sempre colocadas do lado de dentro da calçada, ou puxadas pelo braço em forma de alerta quando atravessarmos a rua sem olhar direito. Todos apreciamos um mimo, e claro, ver que existe um cuidado em se preservar o que somos de bom na vida do outro é mesmo gratificante. Pode ser um beijo na testa, uma cartinha apaixonada com aquela letra máscula e única que só os homens tem (vale um bilhetinho também, qualquer regalo que futuramente possa se tornar peça chave de boas lembranças), uma ligação inesperada apenas para ouvir a voz, porque a saudade apertou de repente. Preocupação e uma doçura em especial quando passamos mal ou ficamos doentes, massagem nas costas depois de um dia cansativo, cafuné nos cabelos até que a gente quase adormeça. Inventar um apelido singular e nada clichê, e usar e abusar de assim nos chamar. Cozinhar de vez em quando, servir nosso prato - e copo, nos puxar mais pra perto e querer estar juntinho ao assistir a um filme ou algo na televisão.

Fazer de nossas mãos um ato de delicadeza: beijem com exagero, segurem publicamente sem hesitar, repousem sobre a sua, quando dirigindo. Achar que a nossa beleza ultrapassa os limites do bom senso, é opinião obrigatória do resto do mundo (e nos falar isso, quando os ataques de baixa auto-estima nos pegam desprevenidas). Mulher é mesmo assim, rapazes: é agir cheios de amor pra dar - apenas para uma de nós, claro - é querer que a cada dia a receita de estar juntos apenas se aprimore, o gosto de ter alguém do lado faça sentido e a gente se entrega fácil. Nem sempre de bandeija, mas de braços (e corpo, e mente e coração) abertos, a cabecinha já aquitetando surpresas para que sejamos únicas enquanto durarmos - e que seja pra sempre, ou intenso enquanto houver vínculo, claro - e a reciprocidade exista. Carinho somado à mimo e ternura só podia resultar num fim distante ao amor que a gente sente, é lógico. Só faz aumentar."


 Calmila, calma Camila.