15 dezembro, 2012

O problema de ser gente



Qualquer relacionamento é uma via de mão dupla. Um artista só produz quadros para aqueles que os admiram. Sem público, sem show, sem canto, sem choro, sem vela. Em um namoro, em um casamento, em uma vida, deve-se sempre ser levado em conta que tratamos de gente! E gente chora, esperneia, grita, se irrita, se desmitifica, se entrega. Gente acorda de bom e mau humor, gente tem dor de dente, garganta e ouvido. Gente está sempre sujeito a problemas, a lágrimas e a mais gente. E quando se junta gente com gente, sai de baixo! Não existe fórmula secreta, palavrinha mágica ou um botão acelerar, pular capítulo. Gente que é gente vai sempre parar em alguma esquina com algum grito entalado na garganta, que o mata por dentro. Gente que é gente sabe que gritar pro nada é perda de tempo. Gente precisa de gente. Gente pra gritar, pra falar, pra se apoiar.
Ser gente é ser mão dupla também. Quando digo que gente precisa de gente pra bater, descontar e desabar, entenda que os dois lados são gente! Ser gente é mesmo ser via dupla. Tem que saber que explodir é bom, mas que aguentar explosão é necessário. Gente fala com cachorro, gato, passarinho, gambá e papelão, mas gente precisa de gente, INVARIAVELMENTE.
O problema de ser gente é que gente se relaciona. E relacionamento é ''gentichismo'' demais pra gente. Porque ser gente sem relacionamento é ser humano, e errar é humano. E olha, relacionamento não permite erro não, só aqueles bem maduros, com tempo de casa. Porque ainda está pra vir o tempo em que se saberá que errar é gente também, e como boa gente que é deve ter resposta honesta, justa. Se errar é gente e gente precisa de gente, errar será inevitável. Mas desculpar erro, aguentar explosão, dar e receber está ainda muito além de ser gente, porque gente é ser humano com relacionamento, mas relacionamento é gente que gosta de gente e está disposto a aguentar as humanidades que por ventura acontecem no caminho.
O problema de ser gente é que ser gente é complexo demais, porque gente é ainda que gente, humano! E ser humano é ter amor demais pelo raciocínio que se tem a ponto de abrir mão de ser humano pra ser gente. É complexo e egoísta, como cada característica ímpar nos faz ser. Mas ser gente é tão bonito, tão harmônico entre as oscilações que há, que sempre haverá um milímetro de gente dominando os desejos de até mesmo toda humanidade que somos. Ser gente é aprender andar em via dupla, respeitando e cedendo espaço para os que vem, e os que vão. Entendendo que, apesar de qualquer pesar, gente só é gente mesmo quando plural.

Um comentário:

Lellis Falcão disse...

Lembrou também uma frase do seriado Afinal o que querem as mulheres. Ser gente e ser relacionamento também tem limite.

"acreditar na eternidade do amor é preciptar o seu fim, porque você acha que esse amor aguenta tudo, então de um jeito ou de outro, você acaba fazendo esse amor passar por tudo. Um grande amor não é possível, e talvez por isso é que seja grande"