13 janeiro, 2013

A paixão

Um dia, nos primeiros dias, aqueles em que as janelas acordavam embaçadas, friozinho ameno, temperatura local, eu acordei. Acordei atordoada no meio da noite, com uma saudade que não me pertencia. O corpo do meu lado, tão perto, me saudava como quem andou longe por tempo demais. As saudades me foram tomando, fiquei acordada noite a dentro. De repente me doía a ideia de adormecer e perder seu sono profundo, sua respiração sem ritmo, seu semi sorriso tranquilo. Te abracei, aninhei meu corpo o mais próximo possível enquanto aquelas saudades inesperadas doíam cada parte do meu eu.
Aquele dia, enquanto dormia e eu vigiava o seu sono, pensei em escrever. Em levantar dali e ver se aquela revira volta no meu eu, na minha dor, poderia e deveria se transformar em escrita, tomar forma em letras, se aconchegar em versos. Mentalmente produzi rascunhos, todos horripilantes, ansiosos, angustiados. Eu não sabia o que estava sentido, se era bom ou se era ruim. Se deveria me afastar, conter, minimizar ou se deveria deixar. A dor foi cessando, o sono chegou de fininho driblando o desespero que significava perder tempo dormindo ao invés de admirá-lo.
O desespero, a ânsia e a saudade naquela noite se instalaram em mim, da forma selvagem e doída que foi. Vi por outras lentes o medo, o querer e a saudade me transformarem brutalmente em amante. Não era mais eu ali, no meu corpo morava mais alguém. A minha alma remendada se uniformizou, e então ali morava eu e você. Você representando o querer infindável, a saudade dolorida e a ânsia urgente.
Naquela noite de inverno quando acordei com saudades e não soube explicar o que me acontecia enquanto me era tomado o pensamento lógico, me foi concebido você. Quando acordei já de manhã não havia mais nada a fazer, eu havia acordado dentro de mim uma centelha altamente inflamável, que desde sua primeira fagulha não quis mais se apagar. Naquele dia eu acordei, mas não só. Naquele dia acordamos, e como se soubéssemos o que fazer abracinho confirmamos em segredo e em silêncio o fenômeno ocorrido na madrugada. De repente eu estava perdidamente apaixonada.


"A paixão (do verbo latino, patior, que significa sofrer ou suportar uma situação dificil) é uma emoção de ampliação quase patológica. O acometido de paixão perde sua individualidade em função do fascínio que o outro exerce sobre ele. É tipicamente um sentimento doloroso e patológico, porque, via de regra, o indivíduo perde parcialmente a sua individualidade, a sua identidade e o seu poder de raciocínio."
Fonte: 
Wikipedia (paixão) 

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