14 maio, 2020



Aos apressados, aos impacientes, ao atrasados e aos descontentes. Àqueles que correm, põe pé na frente de pé, aceleram o passo, xingam o trânsito, atravessam a um metro da faixa. Aos que gritam aos celulares, ao que tamborilam os dedos sobre as mesas e aos que não param pra respirar, espiar, só sabem piorar.
Pra os que nunca olham da janela pra ver o sol nascer, ou àqueles que engoliram o café e esqueceram do bom dia. Àqueles trancados dentro de muros, de salas, de pessoas, trancados dentro de si mesmos e nunca percebem o sol se pôr ou a lua chegar. Sorrateira, transforma azul bebê em céu rosado, violeta, azul um tom mais escuro, azul alguns tons mais escuros. Àqueles que nunca viram a primeira estrela aparecer ou a lua se encher. Aos que nunca olharam pro céu pra reconhecer constelação e perceberam que quanto mais concentrado é o olhar, mais ele se expande, estrelas se multiplicam e se espalham diante de nós. Aos que se perderam admirando o vasto e interminável horizonte. Aos intermináveis papos de fim de tarde e o entardecer do céu, da alma na gente.
Cada milhar existente das impacientes cegueiras, que nos fazem passar apressados e ignorantes sobre as coisas miúdas e belas da vida, compenso ao esboçar um sorriso que não dura nem três segundos, mas que enche a vida de graça para mais três dias da irredutível corrida para a imensidão bruta e inalcançável da vida.

08 setembro, 2016

Ressaca



Acordei no meio da noite, boca seca, cabeça latejando
Troquei o sofá pela cama, sem ganhar nenhuma fama
Olhos marejados, colchão dividido
No meu peito alimentava-se um grito

Despertei com a insônia de um bêbado
Que sem pretensão buscava consolar um coração
Talvez só o estômago revirado
Por tantos tropeços acumulados

A ressaca é misto de sensações
Ninguém a sofre sem nenhum ganho
Ou a sobrevive sem um belo banho
Balde de água fria, café forte e realidade

Seja de amor, bebida ou mar
Certamente vai doer até passar
Dizem que nada como uma cerveja gelada
Pra equilibrar o álcool e manter de pé a (c)alma

03 setembro, 2016

Embabacar

Amar é embabacar, tenho cada vez mais certeza disso
Seguir com os olhos, não desviar o pensamento, ficar estagnada com tal sorriso
É sem querer
E mesmo assim re-ple-to de quereres
Vários deles urgentes, emergentes, chego a quase ficar doente

É o olhar um pouquinho mais brilhante e um sorriso estampado no canto da boca que não se rende
É falar com ar de riso
Admirar com cara de bobo
Um carinho imenso sem explicação
Uma saudade imediata sem solução

A bochecha dolorida no fim do dia
O coração leeeeve, já nem mais sentia
Não há quem releve, se apaixonar é virar tiete

Ai titia
Onde fui me meter
Como faz para resolver
Esse sorriso que não quero desfazer

Digo, repito e insisto:
Embabacar é tão gostoso
Que já nem ligo pro juízo

História cronológica e escrivança de boas lembranças

Era tudo novo e estranhamente familiar
Eu não entendi o que aconteceu, de repente eu tava com um sorriso de orelha a orelha na cara
Te xingava naturalmente como se fosse uma das pessoas que mais amava na vida
E de repente, sem nem pedir licença, se apropriou do espaço com toda autoridade

Obviamente sabia que não era só mais uma, me impressionou sua liberdade
Me ofereceu xarope, amor, diversão, e entre isso, que I would never gonna be alone
Foi de graça, na lata
Bateu, aconteceu, a coisa menos premeditada

Posso dizer que tremi, embrulhei o estômago, perdi um pouco a realidade e suei
Nosso primeiro beijo tão errado, minha impulsividade, nossa falta de tato...
Boato! Ouvi rumores que se acertaram de imediato
A cada beijo um infarto, mal aguenta seu sorriso meu pobre miocárdio

E agora toda essa escrivança, querendo poematizar cada nítida lembrança
De todos os frios na barriga, tem um que não passa
Não adianta o que faça
É o som do seu carro estacionando em frente minha casa

07 fevereiro, 2015

Enquanto existir poesia para choramingar

Cai o mundo, eu persisto
Pisam forte e eu insisto
Perco o caminho, o ninho, a razão
Perco inclusive a mim mesma nesse apagão
Quando apagam as luzes eu paraliso
E eu lá sou doida de pisar onde não vejo? Não piso!
Quem não se mexe no escuro não tropeça em nada
E também não sai do lugar...
É preciso parar pra tomar fôlego e continuar
Empurrar a perna adormecida pra frente, forçar-se a andar
Não teve mais água nem pra chorar
Algo aqui dentro secou quando o mundo decidiu desabar
Não tinha nem mais palavras melancólicas pra confortar
Poesia alguma pra abraçar, fazer de apoio, extravasar
Nem vontade, ou choro, ou grito
Não houve nem eu mesma querendo achar a melhor forma de lidar com tudo isso
Só uma coisa me deu esperança, quando apareceu de maneira peculiar
Essas rimas bobas, tudo no infinitivo, querendo ajudar
Sei que a coisa tá feia, tá difícil melhorar
Mas eu ainda mantenho uma centelha de esperança 
Enquanto existir poesia nem que seja para choramingar